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10/02/2026
Há uma coisa que aprendi sobre o silêncio depois de uma batalha: ele mente.
Parece paz. Parece o mundo voltando ao eixo. É só o mundo pegando fôlego antes de fazer algo pior.
O grupo dormiu — ou tentou. A floresta às margens da Mortalha não é o tipo de lugar que convida ao descanso. Mesmo quando calada, ela observa. Eu sei como é. Passo a eternidade observando. Reconheço a postura.
Roan assumiu o primeiro turno de guarda com a mesma seriedade silenciosa com que faz tudo: plantou as tochas em posições calculadas, criou um perímetro de luz onde a escuridão teria que tomar uma decisão antes de avançar. Não era o acampamento de um homem assustado. Era o acampamento de um homem que sabe a diferença entre medo e prudência.
Foi ele quem viu o rosto.
Pálido. Altivo. Surgindo entre as árvores como se pertencesse àquele escuro — não como criatura, mas como dono. Uma expressão de quem examina formigas antes de decidir se vale o esforço de esmagá-las. Roan não correu. Recuou, com cuidado, sem tirar os olhos daquele ponto. Acordou Aldren primeiro.
Santiago e Versper foram alertados em seguida. Ruviel dormia com a profundidade de um homem de consciência tranquila — o que, conhecendo o bardo, é ou uma mentira ou um talento.
Roan e Aldren foram em uma direção. Santiago e Versper em outra. A floresta os engoliu em pares.
Ruviel ficou. E abriu os olhos.
Não anoto isso como traição. Anoto como estratégia. Há uma diferença, embora a linha entre as duas costume ser mais fina do que os envolvidos gostariam de admitir.
Os pares encontraram o que procuravam: presença mágica, densa como névoa depois da chuva. Santiago sentiu pelo grimório — o livro reagiu como animal que fareja algo podre. Aldren usou seu aparato de engrenagens, aquela extensão meticulosa de si mesmo, e obteve leituras que não gostou de ver. Versper apenas parou e ouviu, da forma como certos homens ouvem quando o mundo fala em frequências que os outros não alcançam.
Ruviel também ouviu. Uma cantoria. Dissonante, sem origem definida — menos um som e mais a ideia de um som. Ele pegou o bandolim e a imitou.
Isso foi, dependendo do ponto de vista, ou muito corajoso ou completamente irresponsável. Suspeito que Ruviel não veja distinção entre as duas coisas.
Foi quando ele viu a árvore. Cinzenta. Galhos retorcidos que sangravam sem estar feridos — ou que fingiam sangrar, ou que eram feitos disso, da mesma substância do sangue sem nenhuma das causas. Errada. É a única palavra que serve. Como uma palavra escrita ao contrário num idioma que já não existe.
E então algo atravessou o acampamento.
Maëlin chegou como chegam as coisas que já não sabem para onde vão: em linha reta, sem direção, movida apenas pelo horror de ficar parada. A criatura de engrenagens de Aldren disparou atrás dela por instinto — ou pelo equivalente mecânico do instinto, que talvez seja a mesma coisa com menos filosofia envolvida.
Era uma elfa jovem. Traços finos que em outros contextos seriam descritos como delicados. Cabelo escuro, longo, enredado em galhos e terra. Feridas que não eram de combate — eram de fuga. Das mãos, a carne sob as unhas havia desaparecido. Ela se arrastara. Por quanto tempo, e de quê, nenhum deles ainda sabia.
Falava. Mas as palavras não chegavam a ser palavras — eram fragmentos, sílabas que começavam como sentido e se perdiam antes do fim. O terror tinha desmontado a língua dela.
Ruviel se aproximou.
Há formas de extrair informação de alguém. Algumas envolvem paciência. Algumas envolvem confiança. A que Ruviel escolheu era nenhuma das duas — era algo mais direto, mais íntimo, e decididamente mais perturbador. Ele sussurrou no ouvido dela. Circundou. Extraiu.
Roan observou isso com a expressão de um homem que está calculando quanto tempo tem antes de precisar intervir. Quando decidiu que o limite havia chegado, se ajoelhou ao lado dela. Tomou as mãos ensanguentadas nas suas, com o peso tranquilo de quem não precisa dizer nada.
Ruviel já tinha o que queria. O nome dela era Maëlin.
O cão de Aldren encontrou algo antes que qualquer um pudesse perguntar o que Maëlin havia deixado para trás.
As raízes vieram de baixo. Verdes, grossas, úmidas — o tipo de coisa que não deveria crescer tão rápido, ou mover-se, ou querer. E elas queriam. Especialmente Maëlin. Como se reconhecessem algo nela que o grupo ainda não tinha nome para reconhecer.
Aldren incendiou o primeiro conjunto antes mesmo de haver consenso sobre o que estava acontecendo. Às vezes a experiência prática vale mais que o debate.
O que se seguiu não foi uma batalha elegante. Foi um acampamento em guerra consigo mesmo enquanto a vegetação decidia disputar o espaço. Raízes prenderam pernas — Ruviel foi capturado, o que ele provavelmente considerou uma afronta pessoal, dado o que fez a seguir. Santiago e Versper mantiveram distância e lançaram fogo. Aldren e seu cão operavam como uma unidade de dois corpos e uma mente. Roan cortou Maëlin livre e a carregou até Versper sem parar para avaliar o próprio estado.
A coordenação que na noite anterior havia sido impulso e caos começava — só começava — a parecer outra coisa.
Ruviel ouviu o assobio. Um som familiar, de cima, de algum lugar entre as árvores. A mesma nota altiva do rosto pálido. Zombaria sem palavras.
Largou o arbusto no meio do combate e foi atrás.
Anoto isso também. Não todo herói sabe a diferença entre bravura e isca.
O silêncio voltou de um jeito diferente desta vez. Mais honesto, talvez. O tipo que se instala depois que o sangue já secou.
Todos de pé. Cinco venturas de cinco direções diferentes, reconhecendo uns aos outros com o alívio de quem não esperava esse resultado.
Menos uma.
Maëlin havia desaparecido durante o combate. Versper percebeu primeiro, e no rosto dele havia algo além da preocupação — havia culpa, aquele peso específico de quem carregou alguém até a segurança e depois piscou.
Santiago abriu o grimório. Rastreou. O livro não perdoa imprecisão, e a trilha estava lá.
Foram mais fundo. Deixaram para trás as tochas, as tralhas, a sensação razoável de que deveriam fazer outra coisa.
Encontraram-na numa clareira de pedras expostas. De joelhos. Braços estendidos além do que o corpo deveria permitir. Sustentada por raízes brancas que desciam de árvores doentes, pálidas como osso, como aquele rosto entre as sombras. Os olhos dela olhavam para o céu.
Vazios. Sem íris. Sem sentido.
Fico aqui, fora do tempo, observando o que eles observam. E o que vejo é isso: a Mortalha não ataca. A Mortalha recruta.
Maëlin não foi arrastada para aquela clareira. Foi chamada. E a pergunta que o grupo ainda não sabe que precisa fazer é uma só:
O que ela deve?